segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Diversidade, teu nome é xadrez


Fim-de-semana em Porto Alegre, o principal clube de xadrez do estado organiza mais um grande evento.
 
Primeira rodada, começa a guerra no panteão, todos em busca da imortalidade que o triunfo neste certame proporcionará. Dos dez favoritos somente um tropeça. Prometeu, um azarão que descera do Olimpo exclusivamente para o evento, surpreende Orfeu, que completamente acuado ainda consegue arrancar um empate e, apesar de cambalear, permanece vivo na disputa.
 
Segunda rodada, Diana, com seus 11 anos, dá um sufoco no experiente Hermes, que aos 49 anos só conseguiu vencer por sua tarimba em finais, escapando por pouco, muito pouco, pouquíssimo.
 
Terceira rodada, Héracles, do alto de seus 77 anos, após uma batalha feroz, derrota Perseu, que no vigor dos 30 anos sucumbiu à força da experiência. Ainda nessa épica jornada, os irmãos Dióscuros brilharam, Póllux extraordinariamente reverte uma batalha que parecia estar perdida e acaba com as esperanças de Teseu conquistar o torneio; e seu irmão Castor, qual um guerreiro indômito, supera as dificuldades no jogo e comprova que o xadrez não tem barreiras, conseguindo a proeza de vencer Oráculo, que não vê mas enxerga muito longe.
 
Quarta rodada, Oráculo prova que não se abateu com a derrota  para um dos Dióscuros e numa batalha feroz, com vários entreveros, triunfa consistentemente sobre Héracles. Restaram para a batalha final somente Chronus e Zeus, todos os outros iriam apenas assistir qual destes mitos alcançaria a glória. Mas a disputa por escalões intermediários pronunciava-se brutal.
 
Quinta rodada, Zeus, que não conhecera sequer o leve amargor de um empate, confirma seu favoritismo e com lances geniais derrota Chronus, que até então fizera um campeonato impecável e lutou como um titã.
 
E mais um torneio de xadrez finaliza, uma guerra sem mortos nem feridos, onde a diversidade e o cavalheirismo imperam e, no tabuleiro, a mentira não tem vez.
 


Do filme Jason e os Argonautas

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Sétimo Selo

"Os sete pecados capitais responsáveis pelas injustiças sociais são: riqueza sem trabalho; prazeres sem escrúpulos; conhecimento sem sabedoria; comércio sem moral; política sem idealismo; religião sem sacrifício e ciência sem humanismo." (Mahatma Gandhi )
 
Um anjo corrompido rouba de Deus o Livro do Fim-dos-Tempos. Este Livro estava lacrado com sete selos, sendo que a cada selo aberto implicaria na liberação de um malefício para a humanidade.
 
Movido pelo desprezo à obra da criação, o anjo desceu à Terra e começou a romper os selos, liberando na humanidade os germes do egoísmo, do racismo, da misoginia, da homofobia, da xenofobia, da intolerância e do ódio ao próximo. Gerando guerras entre nações, fome e pobreza entre os povos e crimes entre as pessoas.
 
A humanidade passava por um momento de inflexão, e o fim-dos-tempos parecia inexorável, seja através de uma grande guerra, seja como uma violenta reação da natureza ante à irresponsabilidade humana, com secas, aquecimento, tempestades, vulcões e terremotos.
 
Deus, que após o sétimo dia da criação, resolvera pouco participar dos destinos da Terra, dando asas ao livre arbítrio, observava com apreensão a destruição de sua obra mais amada, a própria humanidade.
 
Decide, porém, enviar um emissário para fazer frente ao anjo caído.

Papa Francisco, com suas mensagens de paz, amor e tolerância, neutralizou parcialmente as pragas. O anjo, tomado pela intempestividade comum a todo mal e vendo seu projeto de acabar com a humanidade não ser concretizado, resolveu atacar o Papa.
 
Começa com calúnias infindáveis, intrigas palacianas, fortalece predadores internos e inimigos externos.
 
Só que o anjo subestimara a humanidade, Francisco não estava só. Ao contrário do que o anjo pensara, milhões eram imunes às pragas liberadas, a humanidade não era tão abominável como este a julgara. Em todos os lugares, em todas as nações, pessoas imprescindíveis brotavam e resistiam às maldições do anjo. Solidariedade, compaixão, cooperação, ativismo social e ecológico eram vistos por todo o globo.
 
Tomado pela ansiedade com aquela batalha que parecia se prolongar por muito mais tempo do que inicialmente ele previra, o anjo caído decidiu defrontar pessoalmente o Papa.
 
Ciente que Francisco não aceitaria um confronto físico, desafia-o para uma batalha no campo em que a humanidade tanto se orgulhava, uma batalha mental, concretizada numa partida do jogo que Goethe chamara de “a pedra de toque da inteligência”.
 
Após uma luta insana, o anjo caído começa a fraquejar, a posição chegara a um momento crítico, na qual ambos os reis estavam expostos e o anjo pouco acreditava que poderia suplantar a humanidade.
 
 

 
 
Neste momento, o Papa começa um ataque arrebatador, e a cada lance que este dava, uma maldição era destruída, recebendo o Livro do Fim-dos-Tempos um novo e revigorado selo.
 
  1.Txg7 (praga do egoísmo) Rf6
  2. Dxc6+ (praga do racismo) Txc6
  3. Txc6+ (praga da misoginia) Dd6
  4. Txd6+ (praga da homofobia) cxd6
  5. Cc7 (praga da xenofobia) d5
  6. Cxd5+ (praga da intolerância) Re6 e, por fim
  7. Te7 Cheque-Mate!! abatendo a praga do ódio ao próximo.
 
O aturdido anjo terminara enclausurado no símbolo que representa o homem que um dia Deus enviara para nos mostrar o caminho da retidão.
 


 
E a humanidade ganha mais um tempo para tentar acertar os seus passos.
 
 
Ernesto Serra Azul
 
 
Obs.: Conto livremente baseado no problema de xadrez  de autoria de Charles Godfrey Gimpel em 1876, encontrado no Manual de Xadrez de Idel Becker

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O caso do amigo arrependido - parte 1


O interfone tocava, Victor Henrique despertou de seu tédio. Desde que resolvera mais um caso de adultério, seu escritório de investigação estava parado.
- Pois não? - uma breve troca de palavras e o visitante foi convidado a subir.
Sorridente, Victor Henrique recebeu e cumprimentou sua visita - Bom dia, por favor, sente-se.
A sua frente estava um senhor por volta de seus 50 anos, alto, calvo, vestido de forma exageradamente formal para uma tarde quente como aquela. Era evidente que estava nervoso.
- Senhor Victor Henrique? Investigador Particular?
- Eu mesmo, a seu dispor. Como se chama?
- Paulo Praxedes. O senhor anunciou que resolve qualquer problema – e entregou um cartão de apresentação.
- Qualquer problema que seja solúvel, os insolúveis solucionados estão.
-Bem, me meti numa sinuca de bico, não sei o que fazer, fiz uma grande bobagem, quero consertar, mas não sei como.
- Por favor, conte-me para eu pensar o que posso fazer.

 
Ansioso e demonstrando dúvida, olhou para Victor Henrique por um momento e então despejou toda a história.
- Sim, vou lhe contar, estou desesperado, não sabia mais o que fazer nem a quem recorrer. Vi seu anúncio num jornal, vim aqui confesso que cheio de dúvidas, mas você me inspira confiança, conheço um homem de caráter só de olhar.
- Grato pela confiança.
- Assim, sei que você pode se decepcionar comigo, sou dono de uma imobiliária, tenho uma ótima renda mas ... sou viciado em jogos, pôker, bingo, fiquei devendo para umas pessoas perigosas e meu fluxo de caixa não me permitia pagar essa dívida, daí agi como um criminoso com um grande amigo meu – e calou-se envergonhado.
- Pode falar, não sou juiz, não estou aqui para lhe condenar, fique à vontade – estendendo-lhe uma xícara de café.
- Esse grande amigo, amigo do coração, um irmão, é meu parceiro em partidas de xadrez, jogamos sempre, ele tem um jogo de peças lindo, comprado na Europa, literalmente verdadeiras jóias – deu uma breve pausa antes de continuar – pois bem, ele me contou que essas peças são confeccionadas em ouro as brancas e prata as negras, e o rei a rainha são coroados com diamantes verdadeiros! Acredita? Verdadeiros!
- Ouro, prata e diamante? – Victor Henrique perguntou incrédulo – Isso deve custar uma verdadeira fortuna.
- Sim, sim, uma fortuna, e eu todo endividado jogando com aquelas peças. Imagine a tentação? Pois bem, vou confessar, encomendei uma réplica perfeita folheada a ouro, do rei e da rainha brancos e a coroa foi feita com uma réplica de strass. No momento que ele foi ao banheiro fiz a indignidade ... – após uma pausa, e com uma cara de transtornado, completou – troquei o rei e a rainha do meu amigo por peças falsas.
Victor Henrique mexeu se inquieto em sua cadeira, a história toda parecia uma grande farsa, mas a curiosidade estava a mil. – E aí?
- Bem, penhorei as peças pra pagar meus credores de jogo, você sabe, não dá pra dever pra esses caras. Depois de muita luta e sacrifício, consegui resgatar as peças e agora quero desfazer o que fiz, mas não sei como.
- Ora – Victor Henrique disse sem pestanejar – não é só devolver? Fazer a mesma coisa que você fez, jogar e destrocar? Me parece bem simples, não precisava vir aqui.
- Claro que eu tentei fazer isso, mas pra meu azar, meu amigo não usa mais suas peças de ouro e prata. Nas últimas vezes que jogamos, ele sempre usa peças de madeira e não sei como destrocar, todas as vezes que vou lá, levo as verdadeiras mas não tenho oportunidade.
- Então abra o jogo meu amigo, se arrependa, se ele é como um irmão, saberá lhe perdoar, conte para ele o que você contou para mim.
- Não é simples! Além de amigos, temos negócios. Administro alguns bens dele, e ele não sabe que sou viciado, é claro que perderia a confiança, quem levaria para sua casa alguém viciado em jogos que já lhe roubou? eu perderia um amigo e um cliente.
- Como lhe disse, não estou aqui para julgar, vou pensar como resolver, você está de posse dessas peças? Posso vê-las? Quem é esse amigo?
- Sim, estão comigo – Paulo Praxedes abre sua pasta executivo, retira dois embrulhos, desembala e mostra duas verdadeiras obras de arte, um rei e uma dama de ouro, artisticamente trabalhadas, ambas com coroas com pequenos diamantes.
Victor Henrique fica absorto com aquela visão, aquele cliente poderia estar dizendo a verdade. Até gagueja um pouco de encantamento – Po-posso chamar uma pessoa? – com o assentimento, liga para um ourives que tem loja no mesmo prédio. Estando este livre, e curioso com a história que acabara de ouvir, se prontifica a fazer uma visita.
- Álvaro, olha que beleza, é verdadeiro?
Álvaro pegou o rei, testou o diamante contra um pedaço de vidro que ele levara, verificou bem com uma lente de joalheiro e disse – Fantástico, um diamante de qualidade fantástica, finamente lapidado, talha feita por profissional gabaritado.
- É ouro?
- Eu diria que é ouro maciço, não dá para ter certeza do miolo ... deixe-me ver melhor, humm ... pelo peso, pela textura e pela dureza é ouro. 22 quilates, possivelmente produção oriental, pois no ocidente é mais comum 18 ou menos, deixa ver, deve pesar quase 300 gramas o rei. Ignorando a arte, que faz com que valha muito mais, só o peso em ouro vale uns 45 mil reais cada peça. O diamante é um primor. Considerando o material, a arte e a qualidade para um colecionador chegaria ...
- 300 gramas uma pecinha dessas? – Victor Henrique interrompe.
- Por aí. Para seu conhecimento, o ouro pesa quase 20 vezes mais que a água. Cálculo grosseiro né, e não é tão pequenininha, não vai fugir muito disso, tem um ímã? – Vitor Henrique pega um da porta do frigobar e lhe entrega – hum, boa chance de ser maciço, se o miolo fosse de chumbo,níquel ou aço, o ímã atrairia. E pelo peso, oco não é.  – Álvaro olha para ambos e conclui – Vocês têm em mãos duas genuínas jóias de valor inestimável, eu calculo que um colecionador pagaria pelo par até uns R$500 mil. Mas esses colecionadores são loucos, não dá para saber, vocês já viram nesses leilões quantas aberrações ocorrem? – E começou a discorrer sobre alguns preços exorbitantes ocorridos em leilões.

 
Victor Henrique estava estupefato, a história era esquisita, mas as peças verdadeiras corroboravam com Paulo Praxedes, e o que ele lhe pedia parecia nobre, era desfazer um malfeito. Victor Henrique se compadecera, agradeceu toda a ajuda de Álvaro e concluiu.
- Não te preocupes Senhor Paulo, é nobre o que me pedes, vou resolver isso ou não me chamo Victor Henrique. Façamos o seguinte, dê-me o máximo de dados de teu amigo e se quiseres deixar as peças comigo ...
- Desculpe, não posso deixar, te passo um e-mail com as informações sobre ele. Quanto custará seu serviço?
- Entendo ... depois a gente acerta, mas não vou cobrar nada demais. Apesar de requerer uma boa estratégia e planejamento, me encantou essa atitude de arrependimento. Façamos o seguinte, segunda-feira entro em contato contigo.

... continua ... clique aqui
(conto inspirado em aventura do Detetive Parker Pyne de Agatha Christie)

O caso do amigo arrependido - parte 2

... continuação ...  parte 1 clique  aqui

- Eduardo, quanto tempo? Estou com um problema e só você pode me ajudar.

Eduardo Sampaio, Mestre de Xadrez e uma referência local nesse esporte, ouviu atentamente a curiosa narração que seu amigo Victor Henrique lhe contara.

Ele conhecia bem o dono das peças, herdeiro e rentista, Ximenes desfilava pela cidade com carros caros e mulheres novas (ou seriam mulheres caras e carros novos?). Veio-lhe à memória os embates de Ximenes com o Mestre Internacional americano Black Jack no clube. Eram partidas relâmpagos de 5 minutos contra 1, nas quais o Mestre dava a vantagem e apostavam dinheiro.

Dobro e redobro, era só o que se ouvia das partidas e varavam noite adentro. Ximenes era um mau perdedor, do tipo que não deixa quem está ganhando sair da mesa. Para poder ir embora, em geral, o Mestre perdia algumas partidas para devolver parte do ganho e, claro, para Ximenes convidá-lo outras vezes. E assim, por muito tempo, Black Jack tinha uma renda certa.

Só pararam após reclamações da direção do clube, que ali não era cassino e passaram a jogar na casa de Ximenes.

- Sinto muito, não tenho amizade por esse sujeito, não vou me arriscar para ajudar quem não merece. Eles que se entendam. Ximenes sempre foi um jogador sujo e muitas pessoas deixaram de freqüentar o clube por sua desagradável presença. O xadrez evoluiu bastante quando ele deixou de ir para clubes e torneios. Não querendo dar uma de santo, mas xadrez e aposta não combinam.

- Jogar sujo xadrez? Isso é possível? Xadrez não é futebol, não tem impedimento nem jogada desleal.

- Para você ver, em qualquer coisa, no esporte e na vida, existem elementos que conseguem desvirtuar. Acredita que em um torneio ele me ofereceu dinheiro para que eu perdesse e ele pudesse ostentar que venceu um mestre num campeonato?

- Mas Eduardo, não faça isso pelo Ximenes, faça isso pela justiça, para desfazer um crime, para fazer uma boa ação... Se você visse a cara do Praxedes também iria se compadecer. E eu tenho uma honra a zelar, empenhei minha palavra que resolveria esse engodo.

Após uma curta doutrinação, Eduardo, um pouco a contragosto, porém excitado com a aventura e a oportunidade de ver esse famoso jogo de peças, topa analisar a proposta de Victor Henrique e lhe passa o contato de Black Jack.

Uma semana depois, Victor Henrique liga entusiasmado - Eduardo, preste atenção no que vou dizer e tenha todo o cuidado para tudo dar certo, amanhã à tarde você se encontrará com o Praxedes nesse endereço e ... – Victor Henrique desfiara toda a estratégia do plano que ele havia elaborado.

Noite de quarta.

O porteiro interfona avisando a chegada de visitas:

- Eduardo e Sampaio estão aqui senhor.

- Eduardo Sampaio? Pode subir!

Era um condomínio residencial, guarita 24 horas localizada na área externa do prédio. Com um único bloco de apartamentos recuado, jardins, piscina e espaços de lazer, não chegava a ser de alto luxo, porém novo e bem localizado num bairro nobre da cidade.

Ximenes estava exultante, Eduardo chegara a sua casa. Black Jack havia ligado pela manhã avisando que não poderia ir para as tradicionais partidas semanais, mas que tomara a liberdade de convocar Eduardo, pois não queria deixá-lo na mão.

Peças e relógios preparados à mesa.

Ximenes recebe com cordialidade seu ilustre visitante. Combinam que as partidas serão na mesma cadência das partidas com Black Jack, 5 minutos para Ximenes contra 1 minuto para Eduardo.

Eduardo esconde bem sua frustração ao ver que eram peças de madeira. “Fazer o quê? Não iria se matar pelas maluquices de Victor Henrique. Quem sabe afinal se as tais existiam? (se bem que estou carregando duas)”.

Ximenes começou ganhando. Possuía uma boa preparação de aberturas. Um placar de 4 a 2 sem empates nas primeiras seis partidas. Mas Eduardo logo se adaptou, era só não entrar na variante Sämisch da Defesa Índia do Rei ou na Defesa Chigorin da Abertura Espanhola que as fragilidades conceituais de Ximenes vinham à tona. Mesmo assim jogar com 1 minuto não era fácil! Qualquer hesitação e o tempo se esvaia. E ele nunca gostara de jogar apostado, “Victor Henrique me paga, e essa pochete? de onde ele tirou isso?”.

Após uma boa hora e meia de partidas deram uma pausa, 8 a 7 para Ximenes, e este quis apresentar sua biblioteca de xadrez a Eduardo. A entrada parecia um cofre, uma porta falsa do guarda-roupa embutido do quarto de Ximenes. - Aqui ficam minhas preciosidades - E aponta para seus livros de xadrez, vários Informadores (Sahovski), livros clássicos de Paul Keres, Reuben Fine, Smyslov, tantos outros livros mais e, finalmente, numa mesa de canto, a razão daquela visita: um tabuleiro holandês DGT com suas tradicionais peças de madeira substituídas por outras de ouro e prata! Que beleza, nunca havia visto nada igual.

- Lindo né? – Ximenes acordara Eduardo de sua hipnose – Um orgulho, só existem três similares no mundo, pertencem a um magnata russo, a um xeique árabe e a este que lhe recebe.

Enquanto isso, Victor Henrique, que simulara estar acompanhando Eduardo na visita, estava sentado numa poltrona no saguão, lendo uma revista, o mais próximo possível do quadro geral de luz dos apartamentos, sorria sozinho, “Eduardo e Sampaio... dá um bom nome de dupla sertaneja...”. O celular toca.

- Não imaginava que existisse um conjunto assim, sensacional - Eduardo se acerca da mesa. - Da DGT?

- Só o tabuleiro, um joalheiro belga quem fez ...

As luzes apagaram. Escuridão. Com nervosismo, Eduardo desliza os dedos rapidamente até sua pochete. Havia gravado bem a posição das peças e troca rei e dama por seus clones, enquanto ouve os resmungos de Ximenes pelo apagão súbito. Só o tempo da permuta e a luz volta.

Alguns comentários sobre energia, livros, peças e Eduardo pede para ir ao banheiro.

Longe de Ximenes, liga para Victor Henrique e numa mistura de alívio e exaustão diz brincando:

- Missão dada é missão cumprida!

... continua ... clique aqui

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O caso do amigo arrependido - final

Parte 1
Parte 2

- Madrugou Praxedes? - Victor Henrique chegava ao seu escritório. Praxedes já o aguardava no corredor com o mesmo terno da primeira visita. "Que mau gosto" pensou.

 - Desculpa, eu estava nervoso demais, ansioso para desfazer o que fiz, mal preguei os olhos. Então, deu tudo certo?

 - Claro! Como lhe disse, se houver solução, eu resolvo. Vamos entrando - e, num misto de arrogância e bom humor, complementa - Se houvesse chance de fracasso, eu não pegaria seu caso!

 - Sinto me aliviado. Já não sabia o que fazer... Deus lhe pôs no meu caminho...

 - Deus deve ter preocupações maiores Praxedes, você não acredita no livre-arbítrio?

 - Mas ele está sempre zelando por nós. Fico muito agradecido pelo que você fez por mim. Tem certeza que pegou as peças falsas?

 - Sem dúvida Praxedes, estou com elas. Trabalho muito bem feito, eu não conseguiria diferenciar das originais. E a troca foi feita com extrema sutileza. Ximenes nem desconfia.

 - Quanto foi o serviço?

 - Vou lhe cobrar só os custos: R$150,00 para o mestre Black Jack por conseguir o encontro do Ximenes com o Eduardo, lembra dele? e mais R$100,00 de outros custos... transporte, telefonemas, manutenção do escritório... Ao todo R$ 250,00.

 - Nossa, só isso? E seus honorários?

 - Pro bono.

- Como?

Victor Henrique, que sempre quis usar essa expressão latina, desapontado esclareceu - Como era para uma boa ação, resolvi não cobrar. Só lhe peço para guardar, como lembrança dessa aventura, suas peças falsas. Sāo muito lindas! Enganam qualquer leigo - E entregando um recibo para Praxedes recolhe o dinheiro.

Demonstrando nervosismo Praxedes alega que não é que desconfie de Victor Henrique, mas ele teria que primeiro levá-las a um especialista, para confirmar que são falsas mesmo, e que depois o presentearia de bom grado.

Com um ar calculadamente frustrado, Victor Henrique comenta - Entendo... Então, aqui estão suas peças Praxedes - e com um sorriso alegre de um pai que traz uma surpresa para um filho pega um embrulho de pano  de dentro de sua pasta. - Mas antes eu queria lhe contar uma historinha.

 E mudando o tom da voz - É sobre um senhor, ele não se chama Paulo Praxedes, nem é corretor de imóveis, talvez se chame Paulo Souza, Carlos Praxedes, ou qualquer outro nome, isso realmente não importa. O que importa é que ele é joalheiro e um dia chegou as suas mãos para polimento umas magníficas peças de xadrez de ouro e prata. Dotado do dom da arte da ourivesaria, logo ele pensou em fazer cópias próximas à perfeição e substituir as originais, que deveriam valer muito dinheiro.

- Só que Paulo Souza é uma pessoa esperta, imaginou que o dono das peças poderia fazer algum tipo de teste ou um dia notar que não eram verdadeiras, e então a primeira pessoa que ele desconfiaria é óbvio que seria o joalheiro.

Praxedes estava lívido e afundado em sua cadeira e Victor Henrique continuou - Então o que Paulo Souza pensou? "vou fazer uma réplica e vou pedir para outra pessoa trocar, se um dia o proprietário descobrir, vai culpar essa outra pessoa." E então Paulo Souza, estando temporariamente na posse das peças verdadeiras, foi atrás de um detetive para que este inocentemente executasse seu sórdido plano.

Enquanto Praxedes analisava as peças e encolhia-se, mudando o tom do rosto do branco da lividez para o vermelho da cólera envergonhada, Victor Henrique continuou - Fez então a réplica, levou a verdadeira para um detetive, que constatou sua autenticidade e ainda, compadecido da história, se prontificou a consertar a situação.

- Feito o serviço de polimento, Paulo Souza devolve as originais para o proprietário e aguarda com as falsas o dia em que o detetive planeje a troca, evitando que as peças fiquem com este, tudo muito lógico. Tudo muito planejado! Só que o detetive, que é muito esperto - e Victor Henrique sorri com ironia - na última hora descobre o plano e aborta a missão. - E mudando de tom mais uma vez - Agora saia do meu escritório antes que eu mude de ideia e chame a polícia, falsário!

Com olhos coléricos o falso Paulo Praxedes levanta-se atabalhoado e faz menção de ir embora.

- Suas peças ... - o joalheiro responde com um palavrão e bate a porta com raiva.

EPÍLOGO

- Como você descobriu tudo? - Eduardo perguntou curioso, completando - Foi por um triz, bem complicado trocar de novo.
- Sabe Eduardo, na minha profissão tenho que atentar muito para os detalhes, mas também devo evitar rótulos e preconceitos, essa sintonia é difícil. Claro que o falso Praxedes desde o começo não tinha perfil de corretor de imóveis, geralmente, como disse, geralmente, eles se vestem bem e Praxedes com aquele terno e aquelas mãos sujas de artesão não parecia ter muito cuidado com a aparência. Mas isso não é essencial, a gente vê nutricionista obeso, médico fumante. Houve outros detalhes.
- Quais?
- O que você me falou de Ximenes, não me parece que uma pessoa como Ximenes tenha muitos amigos, quanto mais um amigo irmão como Praxedes se reputou, se bem que isso também não foi essencial, tanto que apesar disso planejamos tudo.
- O que mais?
- O principal foi mesmo quando você me ligou da casa do Ximenes, daí tudo se encaixou que era um grande golpe.
- Como assim?
- Primeiro, como você me contou, o jogo estava guardado numa espécie de cofre, seria estranho ele jogar com peças tão valiosas, mas sabemos que existem excêntricos exibicionistas, o que encaixaria com o Ximenes. Mas a ficha caiu mesmo quando você disse que estava oito a sete para ele, ou seja, mesmo considerando a vantagem que você dava, ainda assim Ximenes era um bom jogador, juntando tudo, e com minha genialidade! Matei a charada meu caro Eduardo.
- Não entendi.
- Quando o joalheiro veio à primeira vez, chamou duas vezes a dama de rainha, e você sempre me dizia que jogador de xadrez nunca chama dama de rainha, isso é para ... como é que você chama mesmo? peru? marreco? pato?
- Capivara. Mas até capivara chama dama de dama, rainha é pra quem nem joga!
- Isso, só reforça. E se Praxedes jogava sempre com Ximenes, e se Ximenes joga tão bem a ponto de ter um verdadeiro embate contigo, nunca Praxedes chamaria dama de rainha. Juntando todos os detalhes, e com esse arremate, a ficha caiu.
- Sensacional. E o que você vai fazer com as peças?
- Vão ficar de enfeite no meu escritório, são umas belezas.

domingo, 4 de outubro de 2015

A tempestade

"Navegar é preciso, viver não é preciso" Fernando Pessoa
 
No Brasil, em especial nas grandes cidades, sempre nos jactamos de estarmos protegidos de fenômenos da natureza, “nessa terra em se plantando tudo dá”; “não temos terremotos, furacões, vulcões, geleiras ou desertos”.
Mas nem tudo é tão simples quanto parece. Para o homem do campo, uma tempestade em um dia destrói todo o trabalho e planejamento de um ano. Um excesso de chuva ou a falta desta também causam efeitos nefastos.
Há pouco, no interior de São Paulo, granizo combinado com fortes ventos destruíram completamente extensos bananais, levando por terra essa fruta que alguns dizem ser a verdadeira fruta do paraíso. Lembrem-se que o idílico paraíso é sempre retratado com um clima tropical, região inóspita para a temperada maçã.
Um dos fenômenos da natureza do xadrez é a tempestade de peões. Qual vendaval com granizo, caem vertiginosamente em cima das posições do adversário, derrubando tudo o que há pela frente. Restando ao final um desolado e débil monarca assistindo seu campo varrido, pouco lhe restando a fazer a não ser capitular perante essa força primitiva.

Mas ao contrário da impotência perante a natureza, no xadrez, a inventividade do homem eventualmente consegue superar tal fenômeno.
No Memorial Bobby Fischer deste ano ocorreu em uma das partidas uma violenta tempestade de peões, a qual muitos sucumbiriam. Só que enfrentando a tempestade estava Neri Silveira, o Senhor de Todos os Rios, e com o vigor que lhe era peculiar do alto de seus 69 anos, superou esta com galhardia e, ao fim da batalha, a tempestade virara suave brisa litorânea.


 
Neri Silveira, Mestre FIDE, faleceu neste setembro em Pelotas/RS. Conseguiu a façanha de ser campeão em todos os estados brasileiros começados com Rio: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte (sendo o atual campeão). O Senhor de Todos os Rios mostrou e mostra que xadrez não tem idade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Curiosidade histórica

Transcrevo texto de um antigo artigo do Mestre de Xadrez Ronald Câmara, sobre um pitoresco evento ocorrido em tempos românticos das comunicações, um match realizado entre o Ceará e o Rio Grande do Sul utilizando, vejam os senhores, o telégrafo.

UMA INSTRUTIVA LIÇÃO

     Há mais de meio século, um acontecimento fez época na história do xadrez brasileiro: graças à iniciativa empreendedora de Gilberto Câmara, realizou-se no período de 19.10.47 a 13.03.48 um match entre o Ceará, representado pelo Centro Enxadrístico do Clube dos Diários, e o Rio Grande do Sul, pelo Renner Xadrez Clube. Cada estado participava com dez jogadores e a cadência de jogo era um lance por dia, via "Western Telegraph" - cabo submarino - então o meio mais rápido de comunicação.

    Convictos de sua superioridade, os gaúchos fizeram uma ampla divulgação do evento, acentuando que esperavam sair vitoriosos por uma boa margem de pontos. Em outras palavras, achavam que a "Terra da luz" seria ofuscada pela força arrasadora do minuano! Qual não foi, porém, a surpresa geral, quando, concluídas nove partidas, o placar apontava uma renhida igualdade, com três vitórias para cada lado e três empates.

    A partida decisiva do match estava sendo jogada entre
Wandick Ponte (CE) e Oscar Kurtz (RS).

    Além de emérito professor e conceituado psiquiatra, o
Dr. Wandick é o último remanescente de uma geração de ouro do xadrez cearense, tendo sido campeão de Fortaleza em 1938. Ao lado de suas atividades intelectuais, ele sempre cultivou a prática esportiva, seguindo o preceito clássico "mens sana in corpore sano". E em 1998, aos 87 anos de idade, na cidade de Vitória (ES), venceu o Torneio Sul-Americano de Super-Seniôres de Natação, acrescentando mais um expressivo laurel à sua carreira de exímio nadador!

    Na citada partida, ele se houve com muito acerto, alcançando um final superior.  Entretanto, havia ainda alguns obstáculos a transpor, pois a presença de torres dificultava-lhe o triunfo. Assim, o objetivo imediato das brancas era trocá-las e atingir um final só de peões, com mais facilidade para concretizar sua vantagem.

   Para espanto de todos, quem tomou essa iniciativa foi o condutor das pretas, tendo o cuidado de incluir previamente um detalhe de aparência insignificante. Vejamos o que ocorreu:
   
39 Rf2 Rg5 40 Tf3 Rg4 41 Te3 Th7! 42 Rel Rf4 43 Te2 Rf3 44 Rd1 Th1+ 45 Rd2 Ta1! 46 a3 Tb1! 47 Rd3 Td1+ 48 Td2 Txd2+! 49 Rxd2 Re4 50 Re2 b5!


   Nesse ínterim, chegou de Porto Alegre a informação de que o grande-mestre Erich Eliskases havia sido contratado pela Lojas Renner, fazendo com que o "capitão" da equipe cearense imediatamente consultasse o livro Jogo de Posição - de autoria desse renomado ás do tabuleiro - à cata de esclarecimento para a estratégia adotada pelas pretas no final.

    A pesquisa de Gilberto elucidou todo o assunto e, na página 51, deparou-se com a posição fixada no com o seguinte alerta: "Nessa posição, as brancas têm um peão a mais; apesar disto, não podem ganhar, por que já moveram o peão da torre, ao passo que o do adversário ainda não se moveu". Exatamente idêntico ao que havia acontecido na partida de Wandick Ponte x Oscar Kurtz!

    Diante dessa evidência, o Ceará telegrafou reconhecendo tecnicamente empatada a posição e, por consequência, encerrando esse memorável match, sem vencido nem vencedor.

   Essa história teve ainda um interessante desdobramento. Passados 15 anos, no Torneio Latino-Americano realizado em 1962, no famoso balneário argentino de Mar del Plata, tive oportunidade de aplicar no campeão peruano Carlos Espinoza a instrutiva lição aprendida no encontro entre gaúchos e cearenses.

   Nossa partida - C. Espinoza x R. Câmara - fora adiada na posição estampada e Espinoza propôs empate, arguindo que o seu rei estava bem colocado, impossibilitando que o peão de vantagem das pretas atingisse sua coroação. Recusei a oferta, dizendo-lhe que estava ganho, pois o peão da torre (h7) ainda estava na casa inicial! 


    Espinoza achou que a minha afirmativa era uma broma e pediu a opinião do grande-mestre tcheco Ludek Pachman, que estava jogando o Torneio Magistral, realizado também em Mar del Plata, no mesmo local do Latino-Americano. Pachman examinou rapidamente a posição e declarou que a minha afirmativa não tinha fundamento e que era uma "tonteria".

   Nessa mesma ocasião, passava o grande-mestre Erich Eliskases e pedi-lhe a opinião sobre o detalhe que havia mencionado. Ele atendeu ao meu pedido e durante uns 15 minutos examinou a posição, para me responder: "Não cheguei a uma conclusão, mas acho muito interessante a sua observação". Lembrei-lhe, então, do que ele no momento não se recordava: "Grande-mestre, aprendi a importância de conservar o peão da torre na casa inicial no seu livro Jogo de Posição, ao ensejo do match Ceará x Rio Grande do Sul, em 1947".

Eis como se desenrolou esse final:
41 Re3 Rd5 42 Rf3 Rg5 43 Rg3 f6 44 Rf3 Rf5 45 Re3 Rg4 46 Re4 f5+ 47 Re3 g5 48 Re2 Rf4 49 Rf2 Re4 50 g3 f4 51 gxf4 gxf4 52 h4
As brancas abreviam o desenlace; maior resistência oferecia 52 Re2 f3+ 53 Rf1 Re3 54 Re1 f2+ 55 Rf1 Rf3! e as pretas venceriam. Isso, somente porque o peão preto da torre do rei (h7) ainda se encontra em sua casa de origem, pois se estivesse em h6, as brancas empatariam com 56 h4! Como o peão-h ainda não se movimentou, após 56 h4, as pretas contestariam com 56...Rg3 57 h5 h6!, alcançando finalmente a vitória!
 52...Rf5 53 Rf3 h5!, 0-1. As brancas abandonaram.
 
Retirado de http://www.heldercamara.com.br/ronald0500.htm
Clique aqui para a partida completa